Os grandes poderes que a vida nos legou
- Psicóloga Guillian
- 21 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
A vida nos deseja vivos e viventes, mesmo que para isso, precisemos seguir com partes faltantes ou paralisadas em nós. Esse é um grande paradoxo: o terrível e o belo coexistem e coabitam.
Imensa, ampla, imprevisível e também generosa, a vida nos legou poderes para lidar com o inesperado e com os desafios que nos encontram.
Dois desses grandes poderes são: a interocepção e a neurocepção.
Você já ouviu falar delas?
A interocepção é a capacidade de perceber e reconhecer os sinais internos de nosso corpo – como batimentos cardíacos, fome, sede, respiração, tensão muscular, náusea ou vontade de ir ao banheiro.
Ela funciona como um sensor interno, nos informando sobre o que está acontecendo dentro de nós, ajudando a regular as nossas emoções, comportamentos e estados fisiológicos. E podemos estar mais ou menos conscientes dela.
Exemplos:
Quando sentimos o coração acelerar diante de um perigo;
Quando percebemos um aperto do estômago ao ficar ansiosa;
Quando percebemos uma mudança na respiração diante de uma surpresa;
Quando percebemos um suspiro e maior abertura no pulmão e no diafragma para recepcionar o ar quando nos alegramos;
Quando percebemos os músculos tensionando ao sentir vergonha;
Tudo isso é a interocepção em ação.
A neurocepção é a capacidade do sistema nervoso autônomo de monitorar o ambiente e o estado interno do corpo, informando sobre segurança e perigo. É uma habilidade inconsciente de fazer leitura sobre o ambiente, situações e pessoas.
Por ser inconsciente, é automático e não depende da nossa escolha ou vontade. É algo anterior à nossa capacidade de racionalização.
Sob perigo, a fisiologia aciona as respostas de luta, fuga ou dissociação e o nosso corpo funciona sob constrição, focado na sobrevivência.
Sob segurança, as respostas de engajamento, curiosidade e vínculo são acionadas e conseguimos aprender com mais facilidade, ser mais criativas e autênticas.
Acontece que o nosso corpo guarda memórias e experiências que não lembramos conscientemente. Essas memórias estão no reino do implícito, do inconsciente e do corporal, guardadas nas vísceras, nos ossos e na pele.
O nosso corpo é um grande acervo de memória autobiográfica.
É comum que cada uma de nós tenha uma espécie de “predileção inconsciente” por algum tipo de resposta e, dificilmente é a de engajamento e vínculo.
Você pode, por exemplo, se perceber reativa e impulsiva sob determinados tipos de situações ou mesmo constantemente se sentir envergonhada, com medo ou culpa, percebendo-se mais tímida e acuada.
No primeiro caso, estamos diante de uma resposta afeita à luta, no segundo, a depender de como você reage, podemos pensar em fuga ou dissociação.
A subjetividade humana é muito mais ampla e complexa, como você já deve imagina. Mas, esse mapa psicofísico pode ser um começo para ficarmos curiosas sobre como nós nos habituamos a sentir, perceber e agir no mundo.
Nas terapias somáticas e corporais, trabalhamos com essas memórias emocionais atravancadas também na fisiologia.
Não existe separação entre corpo e psique. O corpo, com sua densidade, nos oferece uma via de acesso objetiva e concreta aos aspectos considerados psicológicos e emocionais.
Através desses grandes poderes, interocepção e neurocepção, a vida nos conta que fomos feitos para habitar nosso primeiro território: o corpo.
Como você tem habitado o seu corpo num mundo cuja ficção é a produtividade, aceleração, eficiência e performance?
Quer mergulhar nesse mar profundo e universo imenso que é você mesma/mesmo?


