Trauma não é só TEPT . Então, será que tenho um trauma psicológico?
- Psicóloga Guillian
- 17 de set. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 21 de dez. de 2025
“Trauma não é o que acontece com você, mas sim o que o sistema nervoso não foi capaz de processar a respeito do que aconteceu com você.” Peter Levine

A traumatização acontece quando, diante de uma experiência avassaladora, não encontramos meios de descarregar o estresse, e assim essa energia permanece presa em nossa fisiologia, gerando sintomas como respostas protetivas (que, na prática, costuma nos atrapalhar bastante).
É como se uma parte de nós ficasse presa nesse evento ou situação, revivendo aquilo que não pôde ser processado. Alguns desfechos para uma experiência de traumatização são o Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT), transtornos psiquiátricos (depressão, ansiedade, transtornos de personalidade, por exemplo) e doenças psicossomáticas (como fibromialgia, amigdalite, refluxo, enxaqueca a tantas outras).
O TEPT é mais fácil de identificar, pois é possível identificar o demarcador da experiência traumática. Geralmente a pessoa tem alguma recordação do evento, como por exemplo um assalto, um acidente ou alguma agressão. Mas também temos as traumatizações precoces, mais sutis e imperceptíveis. Um breve exemplo:
Pensemos em uma criança que constantemente sofre algum tipo de negligência. Os afetos desconfortáveis vão sendo vividos e criando marcas invisíveis que irão compor a sua impressão sobre si, sobre os outros e sobre o mundo. Talvez, ela aprenda que não adianta pedir ajuda, que não é merecedora e que o mundo não é um lugar bom. Quando adulta, perceberá que sua auto estima é péssima, podendo sentir culpa, medo e vergonha desproporcionais e paralisantes, ou mesmo se envolver em relações tóxicas. Mas não se engane, nada disso é uma escolha deliberada ou sequer, consciente.
Como são experiências represadas em nossa fisiologia, nem sempre seus sintomas são percebidos, e costumam vir à tona mediante algum estímulo/gatilho. Sabe aquelas reações emocionais muito fortes e, depois que passa pensamos, “Nossa! Nem era para tanto, mas na hora parece que fiquei tomada”?
É possível que essa reação tenha sido uma resposta da parte traumatizada, algo em si mesma/mesmo que está presa e responde ao presente com as experiências do passado.
E o que fazemos para libertá-las?

Curiosidade, gentileza e compaixão. Essa é a tríade para trabalhar com o trauma.
Não existem inimigos em nós, e saber disso nos apoia a escutarmos com gentiliza e curiosidade o que esses pedacinhos querem nos ensinar sobre nós mesmos. Contudo, tais atitudes também podem ser treinadas, já que não costumamos ser gentis e curiosos com nossos afetos desconfortáveis. Geralmente jogamos pedra no medo, na culpa, na vergonha, na tristeza e na raiva.
A parte boa é que a traumatização é um processo incompleto e não um dano permanente.
O que precisamos é oferecer condições para que essa carga represada flua e se dissolva, e não o que geralmente fazemos: silenciá-la ou oprimi-la.
Os trabalhos com psicoterapia corporal e arteterapia são fortemente eficazes para a abordagem do trauma, pois acessam as memórias implícitas, que são corporais e inconscientes.
O outro tipo de memória é a declarativa e, é através dela que você se lembra do que comeu mais cedo, ou mesmo quando deu seu primeiro beijo (se é que você lembra), mas ela não armazena todos os seus registros. A sua biografia tem muito mais história do que você consegue contar, e a maior parte dela está marcada em todo o seu sistema corporal, composto de músculos, ossos, vísceras e tecidos.
Sim, em você tem um universo pronto para ser apreciado.


